segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Alma indomada

Tenho uma alma indomada:
que grita calada
sofre sorrindo
se entrega ferida
e voa contida

Tenho uma alma inconstante:
uma caixinha de sentimentos ambulante
que teima em fugir da paixão
com um jeito um tanto impositor
que vive implicando com o coração
pra esconder seu pouco jeito com o amor

Minha alma não tem direção
pode ir contra o vento
mudar a qualquer momento
seguir uma indicação
ou ignorar qualquer previsão

Minha alma não tem sentido
briga e desbriga comigo
como lhe convém
é dona de si própria
e mais ninguém

Minha alma
se liberta no tempo
e se aprisiona no espaço
é pedra dura
é suave como uma pluma
uma hora em detrimento
outra firme como o aço

sensível
e domesticada
maleável
e improvisada.
parte é inteira
a outra oca
cometedora de asneiras
age ao mesmo tempo como sã
e como louca

Me divirto e me complico
com essa minha alma
indomada, insconstante.
Que controlo agora,
e me foge no seguinte instante!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

eu tenho levado uma vida como a de todo mundo.

eu tenho levado uma vida como a de todo mundo.

com dias mais animadores,
outros não tão sedutores.
tenho dosado meu temperamento explosivo
com a nostalgia de um coração contido

ando sendo a própria sensibilidade
parece até que troquei de identidade
ando inibindo meu comportamento arisco
tenho evitado investir em alto risco

Pode ser que seja mesmo vocação
ser errada, forçada ou pirada senão
mas tenho andado controlada
daquela maneira bem disciplinada

tenho vivido alguns amores por estação
deixando eles livres no "ir e vir"
esperando Março para fechar o verão
sem nenhum comprometimento em si.

eu tenho levado uma vida como a de todo mundo

mudando meu gosto musical
a marca matinal do meu cereal
meu desenho animado predileto
afinal todo mundo sabe
que gato e rato, não pode dar certo

ando me fazendo as vezes de juíza
condenando os autores das minhas feridas
como o mais grave dos delitos.

tenho andado meio blasé
tomando porre de água benta
sem mais, nem porque
não se preocupe
não esper0 que você me compreenda

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ordem ferida.

andei meio cabreira
um pouco desligada
um pouco zoneira

mas meti ordem na casa
nessa bagunça
de uma vida inteira

era muito drama
para pouca história
para pouca fama

meio amor
não se faz inteiro
em nenhuma soma

era caso perdido
não dava mais
uma fera ferida
não perdoa jamais.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quebra-coração

Tenho sentido bastante..
minhas tristes dores
meus poucos amores
minhas mágoas errantes

Tenho andado perdida
com lágrimas contidas
entre mentiras esmigalhadas
que uma vez soltas
nunca mais podem ser recuperadas

Tenho me visto de mal comigo
por ir contra a minha razão
fugir do meu seguro abrigo
estraçalhando o meu pobre coração

então perdida, quero me achar,
o inverso do torto
de onde devia estar
tantos buracos pelo caminho
são fragmentos do meu carinho

aos poucos,
um a um vou catando
pedaços ocos
desse ferido coração
que mesmo manco
e em dura recuperação
vai se encaixando
sem pressa, sem coragem
mas com admirável precisão

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

condição de liberdade.

não me leve a serio..
se eu te jurar o mundo
e embrulha-lo para presente
(não duvide...
eu faria de tudo!)
mas não me leve a serio.

não me de audiência
nos dias chuvosos
onde vem a carência
inspirando
versos tão amorosos.

não me leve a mal
se a noite chegar
e eu te faltar
dizendo que ...
mudei meus planos afinal...

não me mal-diga
não faço por mal
é para esquecer
meu coração bandido
em liberdade condicional

Que culpa tenho eu?

Feri e fui ferida
Gostei e fui gostada
Entendi e fui entendida
Marquei e fui marcada

Joguei e fui jogada
Machuquei e fui machucada
Abandonei e fui abandonada
Driblei e fui driblada

Apesar disso tudo, estou em paz.
De tudo posso ser culpada
Menos do que mais te insatisfaz.

Que meu sentimento
não é mais seu.
Sinto muito...
Mas que culpa tenho eu?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

e o humor ?

você sempre soube: a primeira vez que espreguiço pela manhã, não quer dizer que eu vá acordar.
mas isso nunca te importou. assim que você abria os olhos, resolvia que estava na hora de eu acordar também. o que sempre me deixava com um certo mal humor. Mas tinha que me reprimir ainda nem bem acordada estando, por acusações audaciosas de que meu humor um tanto ácido, estava virando uma constante em minha vida, no momento em que eu acordava (também, pudera...).
respirava fundo, e no seu abraço que vinha depois das suas resmungas, eu me perdia, dava uns três ou quatro gritos internos, e tudo (ou quase tudo) voltava ao normal.
aquilo virou costume, e foi algo que me fez falta durante muito tempo, quando resolvi partir. acordar de mal humor, sem estar sendo acordada por você, me fazia crer que talvez você estivesse com a razão. mas não ter o seu abraço onde me perder, fazia o dia começar tão vazio...
mas, as coisas foram se ajeitando, os vazios sendo preenchidos, você cada vez ficando menos presente nas minhas nostalgias.
foi quando eu resolvi fazer uma limpa na minha vida. limpar a casa, limpar o carro, limpar a mesa do trabalho, limpar o computador. óbvio que deixei de lado toda a parte em que me exigiria um trabalho braçal e fui direto para o computador.
e-mails antigos, lixeira, pastas. era uma grande revista de tudo. encontrei os e-mails mais doces seus e as declarações mais sinceras minhas. eram pequenos relatos de tanta coisa que aconteceu conosco... um dos e-mails foi apenas para me lembrar que você era tão bonito... esse foi cruel. uma foto, um sorriso e nada mais.
tentei trazer aqueles relatos de volta, aquela saudade de volta, aquelas memórias... tentei te trazer de volta, tentei lembrar que meu mal humor tinha mais graça quando era ligado ao fato da culpa ser sua. mas nada voltava. eu tentei mais algumas vezes, e nada.
por fim, "excluir definitivamente". você estava oficialmente fora da minha vida, sem vínculos, lembranças ou abraços. e agora, a única coisa que me incomodava, era qual desculpa usar para o meu mal humor matinal...

terça-feira, 12 de maio de 2009

passado x futuro

do meu passado
conto-te em memórias
que em cada história
é transformado

é bravo
é meigo
é festeiro
é forasteiro

é escravo
é leigo
é senhor
do mundo inteiro

do meu futuro
conto-te em sonhos
e anteponho
o que procuro

brilhante
sedento
briguento
cinzento

delirante
inquietante
tempo solto
ao vento

defino ao meu querer
ao meu antever
nos passos que seguem
o meu viver

mas a medida em que o faço
aos poucos me descubro
e contrafaço
o que encubro

não sou metade do que digo
mas afirmo parte do que sou
e quando a mim bendigo
é o melhor do que ficou

o passado, desonesto
nem sempre deixa pistas
o futuro, imodesto
um tanto fabulista

do meu passado tenho pouca memoria
de tanto que já mudei
trago fracassos, trago glorias
e outro tanto que escudei

do meu futuro tenho sonhos
alguns quebrados, muitos inteiros
e um mundo de chances, eu suponho
para acertar esses ponteiros

carinho desatado

sem amores, nem tristezas
nem ódios ou gentilezas
despedimo-nos como fomos
o avesso do que supomos

desenlacemos os dedos
desbeijemos os lábios
desatemos os desejos
ajamos como sábios

guarda de mim boas lembranças
despeja fora qualquer ferida
e agora terminada a dança
me despeço na saída

podiam ter havido mais flores
mais cores ou calores
podia ter sido mais sentido
mais querido mais destemido

sem mais, sem isso
ficam sombras somente
do nosso feitiço
rompido de repente

agora vou
sem desassossego
à procura de um amor
e um pouco de aconchego

repouso do coração

quando o coração precisa descansar
é melhor deixar estar
não tem remédio para disfarçar
nem vacina para sonhar

não somente
fica indiferente
como entende
o que se sente

quando acorda, dorme
tem uma calma enorme
e mal se transforme
se desfaz uniforme

é tempo de mutação
descansa, guerreiro coração
faz da paz, multidão
e do sonho, imensidão

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ritmo desandado

... Porque no momento em que levantei, não pude mais voltar. E ali, onde antes me sentia a vontade, não era mais o meu lugar. E sem me despedir, sem me desculpar, fui como quem volta, mas não retornei.
Chorei ao longo do caminho. Mais lágrimas do que o comum, inclusive. Mas eu já me entregava àquela fuga, como quem precisa sempre de um álibi. E ali, eu era a testemunha de que a fuga, em si, não era culpada. Não conseguiria, sem arrancar um pedaço de mim, deixá-la fugir sozinha, e então, lá estava eu, indo ao seu encontro, sempre que me convocava.
À mesa, ficaram algumas boas lembranças... O copo de vinho por terminar, o cigarro aceso, o guardanapo ainda com resquícios do beijo. E tantas boas histórias feitas no curto período que me foi permitido.
E seguindo o meu caminho só pude me irritar por um pensamento... "Esqueci meus cigarros... E a tabacaria está fechada."
A emoção desapareceu, ou o que restava dela, dando lugar apenas a boa e velha razão.
As lágrimas secaram, e o passo desandado, entrou no ritmo...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Encontros e Desencontros.

Quando me perco, logo invento que me acho.
Não é preciso de muito tempo, nem de muita procura.
Crio mil encontros, que já nem sei ao certo quando realmente me perdi.

Prefiro viver da mentira do concreto de “sei me ser”, do que da verdade do abstrato de não estar ciente da minha direção.
Não saberia suportar-me a assumir meu escapamento de mim mesma. Seria fora demais do meu controle.

E assim, assumo o contrário do que vivo, e vivo exatamente da maneira oposta ao que idealizo. E assim, dessa mesma maneira, entre o vazio encontro e a dura perda, sinto a tristeza e a beleza de ser cada dia um pedaço do que me faz inteira.


Ah... E sabe-me tão bem!

domingo, 28 de dezembro de 2008

menu light, por favor!

adeus ano velho.feliz ano novo.
comecei a ter esperança... tem uns 3 meses que isso aconteceu. no começo foi um pouco engraçado, uma sensação meio que de boba alegre, de ingenuidade. mas depois, já era habitual, e não fazia tanta impressão.
mas agora acho estranho, perceber que a minha esperança tem data de vencimento. e eu sei ao certo: 31 de Dezembro de 2008. 11:59:59. talvez ainda haja resquícios do que "me tornei" de esperançosa nos primeiros segundos de 2009. mas não posso garantir...
2008 foi um ano complicado, doeu em muita gente, arrancou alguns risos, é claro. mas nessa esperança cultivei meu pedido, aquele que vou fazer no mesmo momento em que a esperança está marcada para partir:quero escolher do menu light. tranquilidade sem muito molho, amor light, paz só na chapa. chega de tantos condimentos para incrementar (e complicar) tanto tudo.
vou fazer o pedido, no meio daqueles gritos histéricos e sorrisos estampados em rostos mil ao meu redor. e sei que vou esquecer de me despedir da esperança, mas acho melhor assim.nunca fui fã de despedidas,e se eu fosse ela, sairia igual, de mansinho, à francesa, como eu sempre fiz.
viva à 2009! e quanto à 2008.. como "um homem jamais passa duas vezes num mesmo rio, pois quando passar novamente as águas do rio não serão as mesmas, e o homem também não será o mesmo", nem me preocupo, não ficaram boas lembranças, mas também não houve trauma e nem revolta.2009 certamente será mais .... LIGHT !

domingo, 9 de novembro de 2008

onde me acho.



tanto me perco
que me encontro
e quando não me procuro
que me descubro

canso de mim
e descanso
um ciclo sem fim
de pouco avanço

me escuto
sem ouvir
me entendo
sem sentir

sem cuidado
sou desleixo
sem hora marcada
não me deixo

me prendo
ao que resta
me rendo
e fujo pela fresta

tanto tento
que nem sei
tanto tormento
sou fora da lei

e quando me explico
me complico
e menos encontro
do que procurei

... E ponto final.

sem rodeios
sem anseios

procurei mais do que encontrei
caminhei mais do que parei
fingi mais do que sofri
sorri mais do que senti

sem erro
sem apelo

gostei mais do que amei
chorei mais do que pensei
lutei mais que defendi
plantei mais do que colhi

segui mais do que guiei
olhei mais que escutei
driblei mais que pontuei
ganhei mais que festejei

e quando cheguei
não enxerguei
simples assim
esse foi o fim.

Fraco porque convém.

És fraco quando erras
Quando paras
Quando berras
E quando choras

És fraco quando sentes
Quando mentes
Quando corres
E te vais embora

És fraco quando precisas
Quando almejas
Quando aspiras
E quando dás o fora

És fraco quando acertas
Quando anseias
Quando desejas
Sem demora

És fraco quando cobiças
Quando te irritas
Quando esperas
A qualquer hora

És fraco porque queres
Porque te feres
Porque te apetece
E já passou da hora.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sou eu.

Eu sou
O que não fui contigo
E serei comigo
quem você amou

o inverso do certo
o torto da reta
o alvo da seta
a distância do perto

sou
quem se machucou
e se desmemoriou
do que ficou

eu sou
a mutação
sem transformação
do que não prestou

errante consciente
da vaga mente
que vagarosamente
nem mais sente...

e agora,
eu sou, sem tardar
a incógnita
do que me restou

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

amor passado.


Agora eu sei
O quanto te amei

Percebo o teu choro
que não parei
sinto pelo teu grito
que não acalmei

Desculpe
eu não percebi
não te culpes
eu amei muito à ti

Antes era um verbo no futuro
agora no passado
e no meio disso tudo
o meu presente amor foi roubado

Não entendo
em que momento
me escapou
me falhou

Mas sei,
Hoje eu sei

Seu cuidado
exagerado
Sua dor
quando não dei valor
A falta de atenção
que reflete no coração

perdoa
hoje saber
o quanto te amei
e o teu bem querer
que não cultivei

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Hoje eu acordei...

Hoje eu acordei

Nem pra samba
Nem pra rock

Nem pra drama
Nem pra pop

Hoje eu acordei

Sem saber se queria
Ou se devia

Se fazia
Ou se corria

Hoje eu acordei

Cansada para chorar
E mole para sorrir

Animada para sonhar
E covarde para fugir

Hoje eu acordei

Diferente do habitual
Igual ao usual

Um pouco tola
Um tanto à toa

Nada demais
Nada através

E já que tristeza pega mal
Hoje eu acordei... normal.

domingo, 24 de agosto de 2008

Eramos Nós

Era um retrato
no quarto
que me fazia
divina

Era um canto
na cama
que me
deixava tão boa

Era um cheiro
de leve
que me levada
à calma

Era um cuidado
tão breve
que me fazia
ser tua

É...

Era um grito
sem dito
que guiava a ti

Era uma eira
sem beira
que me
afastava de ti

Era uma linha
sem fim
que me
dividia de ti

Era um eu
e um teu
que nos
fazia assim

Assim tão seu
e tão meu
sem esquecer de nós

Um nós
tão louco em si
um nó sem
ato ou desato

Um ato
desacalmado
que baralha
o pensamento

O pensamento
tão só
que era tão seu
e meu

E virou tão nós
que esqueceu
de ser

Ser o fato,
o agravante
um ponto cessante

Onde não somos
mais nada
e nem mais ninguém

E ninguém
nada é
quando te
substituem

E o retrato
no quarto
nada mais é

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Minhas marcas.

Tenho cicatrizes largas e rasas
Outras profundas e estreitas
Tenho aquelas que trazem lembranças amargas
E algumas que ainda vão ser feitas

Meço-me por estas marcas
De pouca ou muita intensidade
Feitas por palavras ou facas
Que aguçam minha curiosidade

É, tenho marcas ocultas...
De perdas desconhecidas
Despedaço-me em muitas
Para estancar essas feridas

Têm formatos variados
Tamanhos indecifrados
Problema enigmático
Que me faz por vezes calmo
Outras, dramático

Tenho marcas de sobrevivência
De nascença
Marcas de sofrimento
E de tormentos

E são essas marcas
Que constroem minha casca
Causam minha vertigem
E pautam minha coragem

Por te esquecer...

é por tanto te esquecer que eu choro.
porque sinto falta da sua imagem vívida
agora cada vez mais disforme

porque seu cheiro antes penetrante
ora suave, ora alucinante
agora parece cada vez mais distante

e seu toque que delicadamente me encostava
agora é tão pouco sentido...
o mesmo que antes me embriagava

e é essa a razão dessas lágrimas soltas
porque um dia te prometi não esquecer
nem de um minuto do nosso prazer
me desculpe, te menti.
tive que dizer...

segunda-feira, 28 de julho de 2008

carta

Olga,

Não te preocupes. Não vou dizer que entendo sua dor.
Mas posso partilhar com você a solução enigmática do abandono.
Mas te digo por experiência de causa, algumas culpas não são nossas, porém outras são...
Não te prendas a leve consciência de que não foste tu que escolheste esse caminho, pois assim serás tu a culpada por se trancar nessa gaiola e jogares a chave fora.
Não sejas vitima da sua própria desgraça, com isso te diminuis e acabas por te convencer da triste ilusão criada por ti!
A criança abandonada, se ilude que perdeu a infancia, a inocencia. Apenas uma desculpa esfarrapada para as atitudes erradas cometidas quando adultos.
Maridos, esposas, amantes,... sao abandonados o tempo todo.
O problema é quando nao queremos nos achar...
Tenho uma bússola e uma imensa vontade de te ajudar.
Só nao tenho pena de ti, nao me faça começar a ter..

Tua "cruzeiro do sul".
Carlota

redoma transparente

te coloco numa redoma
e te cuido
com toda a delicadeza
com carinho e sutileza

te observo, te compreendo
te conforto nos dias de medo

te preservo
te embelezo

e mesmo assim
quando te liberto
e não fico por perto

foges de mim sem vacilar
é o amor bandido que queres encontrar.

eu bem que tento.

eu bem que me controlo
mas sinto tanto
a lágrima arde quando encurralada
a cicatriz se rasga quando cutucada

eu bem que me seguro
mas sofro tanto
tenho a dor de cada despedida
o sangue seco da ferida

eu bem que me prendo
mas choro tanto
tenho o pranto de ser abandonada
as lágrimas de mil lembranças estraçalhadas

eu bem que me escondo
mas me procuro tanto
que por vezes me acho e não me reconheço
outras, fujo e desapareço

domingo, 29 de junho de 2008

um minuto para mudar

E quando acordo querendo um novo sentir
um sentimento desprendido
de tudo que já vi.

procurando um novo gostar
sem ter aquela necessidade
estereotipada de amar.

sonhar com um novo querer
deixando de lado
meu antigo jeito de ser

queria ser mais forte
do que delicada
queria ser mais firme
do que educada

ter vontade de brigar
ao invés de calar
despedir-me de ti
ao invés de embirrar

não sei o gosto do meu novo sentir
não sei o cheiro do meu novo gostar
não sei o toque do meu novo querer
e tenho um minuto para mudar.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A menina XVI - Dia do avesso

Hoje a menina acordou do avesso. Se vestiu no escuro, fechou a janela para o ar puro. Saiu de ré, sem olhar no retrovisor. Bebeu café, sem passar no coador.
Ela tomou banho de sol crescente, pulou o quadrado e caiu na poça logo em frente.
Saiu sem se pentear, e quando notou já estava em outro lugar. Não obedeceu nenhum sinal, e deu bom dia para o policial.
Ah, hoje a menina acordou do avesso. Tirou a roupa e colocou o pijama para sair. E voltou a se vestir, na hora de dormir.
Deu bom dia ao senhor da padaria, roubando-lhe um pão... Afinal, não tinha nem moedinha, não. Ao senhor florista, disse-lhe que era dia da conquista. Pediu uma flor, e sorte para encontrar um amor.
Era dia inspirado da menina. Tomou três picolés ao invés de almoçar, e na hora da sobremesa, um bom prato de paillard.
No trabalho avisou que não ia voltar, e para casa esqueceu até de telefonar. Correu na água e nadou na areia, e depois encharcou a fogueira.
Dançou quadrilha no carnaval. Seu São João, afinal, era sazonal.
Mas aí...
Aí que o sol se escondeu, a lua apareceu...
E a menina, como que em êxtase, adormeceu.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Aquém da compreensão




Eu não sou doida
Nem santa
Tampouco pura

Mas tenho fogo
Tenho desejo
E também loucura

Eu não entendo tudo
Mas sou menos burra
Do que quem entende

Porque eu assumo
Enquanto quem jura
Deveras mente

Não quero fronteira
Dentro do meu espaço
Bem delimitado

Mas quero barreiras
De chegar ao passo
Que não foi dado

Voltando ao que sou
Descubro que não
Fui quem serei

E quando virar
Deixarei de ser
O que um dia sonhei

terça-feira, 27 de maio de 2008

Uma carta para Dona Maria


Minha mãe,

Tenho sentido muito a sua falta ultimamente.
Essa distância me incomoda. Isso de saber que eu não posso entrar num ônibus e sair na próxima parada sabe?
A viagem de Goiás até Cáceres vai além do que me é permitido tendo que cuidar desses seus dois netinhos. O máximo que consigo é a parada até o supermercado, e olhe lá.
O João tá bem. Mas sei lá, eu queria mais , sabe mãe...
E a senhora? Como vai o Godô? Não adotaram mais filhotes de gatos não, ?
Bom, tou escrevendo essa carta na verdade porque sei lá. Acho que imaginei um mundo maior quando vim pra cá, há dois anos, e sinceramente? Nada ficou maior.
A casa é menor, o amor meu e do João ficou menor, a vontade de crescer ficou menor. Até a minha barriga ficou menor. (único ponto positivo)
Sabe mãe, a senhora quer tanto sair daí, ser mais. Mas eu descobri que para mim, isso não deu em nada. Em um lugar maior, as chances de sermos menores, é bem maior.
Mas não tenho arrependimento, não. Eu não saberia se não tivesse tentado, ?
A Julinha e o Vitinho rezam sempre pela senhora.
A senhora sempre foi maior que o lugar que eu conheço aí, pensa nisso. É bom isso, as vezes, até o suficiente.

Um beijo com saudade de querer ser mais.

Sua filha,
Raimunda

Falhei por engano

Falhaste por engano
Mil vezes em um ano
Desculpas sempre encontro
Para silenciar meu pranto

Nunca te culpas a ti
És sempre absolvido por si
Vítima confessa te fazes
De crimes que desfazes

Sou ré obrigada
Por ti aprisionada
Veredicto absoluto
E tu nem ficas de luto

Não pressinto
E nem desminto
Minha libertação
Faz-se da minha ilusão

Culpo agora eu a ti
Por me mentir
E ter de te culpar
Para não me encarar

Leve esse peso contigo
Que o resto já é meu
Deixe descansar esse ego ferido
Que já não culpa, nem liberta o seu.

Flor desapegada

Uma flor me machucou
Quando caiu do seu galho
Em um ato falho
E não me notou

Eu a olhava encantada
Pelo seu jeito sutil
Até bem gentil.
Estava hipnotizada

Suas pétalas bailavam
Ao som do vento
Em contentamento
Mesmo quando ninguém as olhava

E foi assim que
Como que no ato final
Fez seu passo fatal
Sem me deixar um por quê...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

responde para mim...

À ti, chega ser rei
de um castelo sem súditos?
À ti vale ser herói
se a máscara te faz oculto?

diz-me onde começa o orgulho
onde entra a vaidade
diz-me que se não há barulho
importas-te com a verdade

se a pétala é arrancada
da mais bela flor
e não servir para mais nada
sentirás por ela, dor?

diga-me seus sentimentos
fala-me da sua nobreza
mas cuidado, fique atento
para esconder sua avareza

não há beleza no sol
enquanto a chuva não vem
e fazem um belo nó
com as cores que lhes convém

a lua também não é tão deslumbrante
sem suas pequenas acompanhantes
surge uma, surgem duas, surgem cem
estrelinha, estrelinha que te quero o bem

diz-me agora se serias presidente
de um país desgovernado
se gostarias de estar ciente
de um coração machucado

ou melhor... não responda, não
todos vivemos com nosso falsos altruísmos
quem sou eu então
para julgar teu famoso egoísmo?

Vem comigo, vem


me dá a mão
vamos correr
para o lado de lá

fecha os olhos
vem comigo pular
as sete ondas sem parar

tapa o ouvido
vamos cantar
até o dia clarear

me segura forte
vem sem pensar
vou te levar para outro lugar

vem sem cuidado
pode confiar
faz a mala para a gente escapar

vem comigo, vem
a gente pode até sonhar
qual o gosto do melhor amar

me dá a mão
e vem
porque daqui a pouco sai o trem
e podes não ser mais esse alguém

Vou gostar de você

para não chorar
só vou gostar de você
com seus hábitos e manias
e seu sorriso de purpurina
para não sofrer,
vou mais é gostar de você

não me leve a mal
ainda acredito no amor e tal
mas como cavalo sem cela
prefiro ser dona da minha própria trela

vou ser cachorro abandonado
nunca antes domesticado
com alguns impulsos de calmaria
queria realizar qualquer tipo de fantasia

vou gostar de você
sem muitos quereres
trarei-te prendas sem data especial
não buscarei meus sonhares
não faz meu gênero afinal

te cuidarei delicadamente
te fingirei palavras bonitas
mentirei para ti suavemente
para que a mim tu não mintas

serei amante por encomenda
tu, feliz sem muita preocupação
dou-te a ti casa e renda
não entrego a ti meu coração

sim, para não amar
vou é gostar de você
serei zelosa e exemplar
até o dia que de ti eu me esquecer.

Eu volto..

me dá um tempo que fica tudo bem
me dá espaço para eu poder voltar
não quero ser de ninguém
mas posso inventar uma maneira nova de amar

você tem a calma plena
eu tenho o controle total
você gosta de fazer cena
e isso para mim é fatal

gosto do seu sorriso amarelo
do seu perfume impregnado no corredor
tem gosto bom seu beijo sincero
não gosto do meu jeito de gostar amador

não temos muito em comum
por isso digo que volto
posso conhecer qualquer um
mas para ti, acredita que eu volto

sábado, 19 de abril de 2008

A menina - Parte XV Amor com bula.

E ela sabia que ia ser sempre assim.
Esse amor com trava, sem cano de escape. Capado no “ilimite”, humilhando a infinitude para algo atingível.
Era vetado de poder existir,
Tentaria então coexistir.
Era uma sensação um tanto quanto amarga.
Era como que uma música fora do ritmo.
O possível não ser permitido ou o impossível ser estipulado.
Era assim...
Onde o encontro barrava emoção, onde o não encontro afogava frustração, onde o desencontro agredia ao coração.
Era essa a sensação, esse amor com bula.

domingo, 13 de abril de 2008

A menina - Parte XIV

Se sabor do que lhe apresentassem, bastasse...Mas não, a menina esquecia de imaginar o que vinha depois. Muito ela queria querer, mas pouco ela simplesmente queria por querer.
Ela havia brincado de criança enquanto crescida, fingido rugas de idade vencida. Era como que um jogo engraçado, meio que de gato e rato. Era um pouco criança precoce, um pouco adulta sem posse.
Era meio complicado para o resto entender. Sinceramente.. ninguém conseguia a compreender.
Era meio vida, meio morte. Era meio sóbria, meio embriagada. E nisso a menina permanecia achando que era, quando no fundo não era nada. Mas era o que fingia ser. E no fingimento do ser era tanto, e acreditava ser tão profunda... O que a fazia crer.
A menina não titubeava, mancava mas permanecia sua jornada. Eram pedaços esquecidos do seu coração partido, eram memórias escondidas de sua mente ferida, ...
Naquele momento a menina poderia dizer das situações estonteantes, até daquelas vibrantes. Poderia lembrar dos momentos que lhe causaram dores ou daqueles apaziguadores.
... E a menina pensou, e na embriaguez sóbria e sofrida, desistiu de se interpretar. Foi dormir, e resolveu sonhar, ao invés de pensar.

terça-feira, 1 de abril de 2008

A menina - Parte XIII

...E a menina acordou com um sentimento estranho. Um vazio tomava conta de si, e fazia com que ela não tivesse espaço para livremente sentir. Seu teto estava embaixo do pé e seu chão em suas mãos. A gravidade parecia do avesso e a sensação térmica desregulada. Algo se passava, e a menina queria não ser. Mas era, e por isso levantou-se, pegou sua esquecida sacola e foi para a rua, sem nada dentro. Não tinha dinheiro, não tinha documento, não tinha consciência, não tinha pensamento. Era oca, era vazia, era rasa. Enfim, era uma sacola, simplesmente uma sacola.

A menina passou pelo trilho do trem e fez um pedido, depois o guardou com todo o cuidado, embrulhado para presente, dentro da sacola laranja. Caminhando encontrou uma flor, cor indefinida, tamanho incomum, cheiro indizível. Precisava dela para sentir-se compreendida naquele momento e a cuidou. Em uma redoma a colocou e depois na sacola, por fim, guardou. Na papelaria via folhas em branco, folhas em rosa, folhas em amarelo, via folhas em azul e verde, e a menina via folhas, tantas folhas a serem escritas. E prontamente as imaginou preenchidas, com palavras invisíveis, escreveu um livro e com um cadeado a lacrou, para que se juntasse aos itens de sua pequena grande sacola. Viu uma criança sorrir, e capturou seu sorriso. Viu também o choro de um senhor, e roubou para seus pertences. A menina sentiu a dor de uma mãe, e segurou para si. Ela passou no circo e sentiu as gargalhadas, passeou na praça e brincou com os grãos de areia do parquinho, passou por ruas, e cruzou faróis de sua mente confusa.

Sim... ela ia caminhando, enchendo aquela sacolinha tão só, tão sem tudo, tão sem si. A menina viu o nascer do amor para um jovem casal, e o nascer da esperança para uma senhora de meia idade no banco da praça. Ela viu a curiosidade óbvia de uma criança seguindo outra com seus olhinhos, e viu o desinteresse de um homem de terno ao caminhar por tão bela paisagem.

A menina voltou para casa, e começou a esvaziar a sacola. Passou o dia tentando preencher o vazio que havia dentro de si. voltou com uma sacola cheia, porém de outros. Eram sentimentos alheios, pensamentos alheios, sensações alheias, vontades e hábitos alheios. E percebeu que era bom preencher de vez em quando aquela sacola, mas que isso não a completaria. Não quando ela mesma não pudesse sentir por si só. E a menina calmamente arrumou os pertences da sacola nas estantes e prateleiras. Guardou em potinhos os aromas, em frascos os sentimentos, em baldinhos, em caixinhas, ...

A menina sentia-se vazia, e aquele dia foi bom para descansar um pouco dela. Andava vivendo tanto, que precisava apenas disso, de um descanso. Passeou e observou tanto, que esquecera de lembrar de si, e isso foi a sorte do seu dia.

terça-feira, 18 de março de 2008

Partes de mim

Sou feita por partes que conheço
Algumas de bom convívio
Outras que eu jogaria pelo precipício

Sou feita também por partes que desconheço
Algumas que chegam por decreto e tal
Metade louca, outra imoral

Sinto que ao longo do tempo
Vão aparecendo novos sentires
Novos gostares, novos quereres

Aparecem sonhos avermelhados
Pesares chumbados
Amores prateados
...uns sentimentos disfarçados

Personagens vêem e me invadem
Seres desprendidos
Qualquer coisa que querem podem
Nada lhes é proibido

Entra no coração um ser mascarado
Entra na razão um cálculo já solucionado
Na barriga vem um frio fantasiado
Fazem o que querem para não ficarem entediados

Sou a nova morada de um refugiado
A possessividade de um ser altruísta
Um boneco feio, embelezado
Pela caridade de um egoísta

Sou o poço fundo de uma gota d`água
A tempestade no sertão
A bela bailarina com saia rasgada
Cuidada por um artesão

... E eu sou assim
Feita por partes que conheço
Partes de desconheço
E outras partes, enfim...

terça-feira, 11 de março de 2008

A menina - Parte XII

A saudade bateu forte. E a menina teve que voltar àquele lugar.
Aquele lugar a lembrava de um amor grande, do primeiro ao último encontro.
A menina foi ver as sacolas de plástico que sempre voavam por ali, entre os prédios, rumando o redemoinho que se fazia com pedaços de folhas secas. Foi ver os pombos a caça de comida, como sempre famintos. Foi pular os quadrados pretos e apenas pisar no chão branco. Foi ver as pipas fugirem umas das outras para que não fossem cortadas e perdidas, mas com uma sutileza que parecia que brincavam de pique-pega. A menina foi ouvir a bandinha que tocava sempre a mesma música desafinada.
Ela foi procurar aquele amor por entre bancos e encontrar no meio dos balanços, aqueles mesmos que antes eram cúmplices daquele amor.
É, dessa vez a saudade bateu forte mesmo. A menina foi se “redespedir” do seu amor maior, se é que ela tinha o direito de inventar tal palavra.
Ela foi e não encontrou nada. E voltou para casa. Seu amor grande havia sido idealizado por ela em cada canto de sua fértil mente. Era tão fabricado que parecia que vinha com etiqueta com prazo de validade e data de fabricação. Seu amor grande foi doloroso, teve complicações durante a produção e execução do produto. Foi o mesmo amor que lhe cuidou, o que lhe feriu. Foi o mesmo que lhe acariciou, que lhe enfiou a adaga ao lado do ombro direito. (Não tentemos entender, era ali que a menina sentia a concentração de toda a sua dor, por aquele amor grande...).
A menina chegou em casa, abriu a geladeira e pegou um iogurte. Depois de dar a primeira colherada, viu a data de vencimento. Havia uma semana que tinha vencido. Ela desceu as escadas, passou pela rampa, avistou uma lixeira na outra esquina. Jogou o iogurte fora, e voltou para casa. Dizem que não há notícia de outra tentativa de reencontro entre aquela saudade do grande amor e a menina, a tal da "redespedida" nunca mais deu aquele gostinho.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sabemos lá!

Me perguntaram uma coisa que a minha própria resposta me deixou intrigada.



- ... Mas e qual é a diferença da sua razão e da sua emoção?



- Ah... sei lá!



É verdade, lá eu sei. Seguindo essa estrada complicada do consciente, até chegar ao que denominamos sub-consciente, a maneira vulgar que chamamos o inconsciente ainda não tão sujo para nós. Seguindo essa reta com curvas acentuadas, depois de algumas fronteiras, algumas barreiras, alguns confrontos, e caso não tenhamos desistido... Bom, se continuarmos por esses trancos e barrancos, e ... a partir desse ponto eu não tenho mais o "mapa da mina". Mas sim, chegamos lá (eu acho).



E quando eu digo lá, é esse "lá" que falamos de maneira desprendida. "Ah... sei lá!", jogando para a distância para não sentirmos o peso de que realmente sabemos, e lá, é apenas uma maneira -mais uma maneira- de jogarmos a batata quente para mais tarde. Mas nesse caso, estamos jogando nós x nós mesmos. Não tem muita chance de vitória, ou de derrota, ou então temos chance dos dois. Você ganha, você perde, você decide.

terça-feira, 4 de março de 2008

ZERO KILLED

“Durante a Guerra da Secessão, quando as tropas voltavam para o quartel após uma batalha sem nenhuma baixa, escreviam numa placa imensa "0 Killed" (zero mortos). Dai surgiu a expressão O.K. para indicar que tudo está bem.”


- E aí, como você tá?
- OK.

0 (zero) killed. É assim que estou. Sobrevivi ao "campo de batalha" hoje. Não tive que me deparar com granadas, ou metralhadoras. Mas a gente acaba achando que sobrevive, essas são as nossas batalhas diárias. E os dias sem discussões, ou estresse, acabam virando os dias mais OK possíveis. Os outros a gente termina com uma ferida de uma metralhadora fictícia, ou com o mesmo sabor de vitória do soldado que sai vivo.
Nos sentimos praticamente heróis, como aqueles mesmos que voltam para o quartel vivos após a batalha!

Estou: bem, contente, alegre, estressada, puta, feliz, brava, incomodada, sofrida, sentida, magoada, bêbada, maluca, frágil, ... Por quê não, viva? Ou melhor, não morta?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A menina - Parte XI


A menina deu um grito mudo. Depois parou. As pessoas ao seu redor permaneciam iguais. Nada havia mudado, ninguém havia percebido. Um grito de socorro, de ajuda, tão sentido, tão simples... Mas esse grito silenciado dificilmente alcançava os decibéis mínimos para ser notado.

A menina continuava a acreditar que sua vocação era ser feliz, mesmo com a vida teimando em contrariar suas crenças. Ela gostava de picolé no inverno e de sopa no verão, gostava de jogar futebol de botão e peteca com as duas mãos. A menina ria quando nervosa e chorava de alegria. Achava que vivia à margem do mundo, e nesse não pertencimento ao mundo, “viajava” por todas as esquinas e encruzilhadas de sua alma.

Mas nesse dia... No dia do grito mudo... A menina gritava a dor, e calava a dor. Via de maneira imensurável a quantidade de tipos de dor. Dor de amor, dor de raiva, dor de paixão, dor de coração, dor de ego, dor de ira, dor de pena, dor de insatisfação, dor de desprezo, dor de tanta dor. Que confusão...

A embriaguez da liberdade deixava a menina zonza, e por isso ela gritava. Era como se cada encontro com a dor fosse o primeiro. E como a menina fugia desse encontro... Mas não adiantava. Dor parece saber todos os endereços, CEPs, direções de cor. Pode-se começar com o coração doendo, com o frio na barriga, a dor de cabeça, a lágrima perdida, pode-se começar de tantas maneiras, mas acaba com aquela mesma sensação, que indiferente do tipo de dor, confunde e não se distingue então.

A menina caiu no choro, um choro de decepção talvez. Por tudo que havia lhe causado dor até ali. As vontades contrariadas de ser feliz, as esperas ainda não cumpridas, a vontade de que alguém lutasse mais quando ela dissesse não. Chorara por pensar mil coisas. Mas chorara e o coração ficara mais leve. Não sabia que tipo de dor era, mas não interessava, fosse de amor ou de ego, acabava sendo confundida na mesma coisa. Na hora da dor, não se vê a diferença.

Foi então que a menina decidiu ir dormir. A dor não iria atrapalhar-lhe o sono. Ela não teria essa audácia!

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Um tal enganador


Enganador de coração
Aprendeu a dizer não
Brincou com a razão
Driblou a explicação

Sem entender o motivo
Criou um abrigo
Fez-se de amigo
Do sentimento contido

Ser astuto, eu diria.
Sábia companhia
Banho de água fria
Numa noite sombria

Não sei quem sai mal
Se é o enganador tal
Ou a alma imoral
De quem faz igual

Esse enganador
Encobre com louvor
E deixa de sentir dor
Mas também não conhece o amor...

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Perdoa-me


Perdoa minhas mentiras cobertas de omissões
E também as flores pagas com cifrões
Meu contentamento não tragado
E meu ciúme forjado

Perdoa minhas idas sem volta
E chegar em casa meio torta
Meu carinho desinteressado
E meu beijo mal dado

Perdoa minhas falsas indagações
Fabricando emoções
E meus abraços sedutores
Trazendo dias promissores

Perdoa minha falta de tato
Não ter cuidado em ser pega no ato
E minhas cartas de amor
No fundo, sem valor...

Perdoa minhas declarações fajutas
Minhas falas incultas
E também meu temperamento inconstante
Com discursos estonteantes

Perdoa minha fuga sem dar tchau
Não leve para o lado mal
Afinal refúgio traduzido
Nada mais é que evitar o perigo

Perdoa meu coração
Ser comandado pela razão
Perdoa-me..
Perdoa-me...

A menina - Parte X

Eles terminaram. A menina ficou devastada. O menino não deu muita bola. Sim... Atendia as ligações da menina e ouvia seus choros. Também respondia suas mensagens de texto incessantes e e-mails com tom nostálgico. A menina não entendia como três anos, 9 meses e 7 dias podiam valer tão pouco agora. O rapaz explicava que ela estava sendo radical, e que não era bem assim. A menina chorava muito, e o menino seguia com a vida. Arrumou uma namorada, o que fez a menina cometer loucuras nunca imaginadas antes. Bancou a detetive e subornou o jornaleiro. Além disso, tentou difamar a nova namorada, e inventou namorados imaginários. A loucura aumentou. Ele perdeu a paciência (que durou até demais) e começou a ignorar a menina. Ela continuava fazendo tudo, mas agora ele apenas era espectador, sem aplausos ou vaias. A menina parou de ter imaginação para tantas loucuras e conseqüentemente, parou de cometê-las. Meses depois se esbarraram. Deram um simples “olá” com a cabeça e continuaram. O rapaz a seguiu com os olhos até perdê-la de vista no calçadão, a menina não.

Amor com prazo de validade

Amor com tempo marcado
É algo complicado
Vem com prazo de validade
Prazo para mudar de cidade

Chega numa terça qualquer
Daquelas que a gente nem quer
Temos preguiça de levantar
Principalmente de se arrumar

Mas aí...
Ah... aí é que ele adora
Chega pomposo e todo prosa
Invade onde bem entende
E anuncia o que pretende

Acontece naquele mesmo dia
Independente da tarde fria
Mas avisa logo um dia que está por vir
E que terá de partir

Cada tarde passa que é uma beleza
E as noites...
Nunca se viu tamanha delicadeza
Juras de amor e entrega
Está travada a batalha sem trégua

Quando o temido dia vem
O sol parece não despertar ninguém
Mas a vida tem que continuar
E não tarda a hora do adeus chegar

Risos e gargalhadas trocam de lugar
Dão espaço para a lágrima chorar
E a noite vai e o outro dia chega
E parece que falta um lugar na mesa

Mas amor com prazo de validade é assim
Chega folgado e sai de fininho
Vem e vai... Vai e vem.
Como bem lhe convêm
Mas é assim..
Amor com data marcada
Enfim...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Possiblidade de amor

Possibilidade de amor vem chegando. Chega sem hora marcada, sem pedir licença. Ela pode. Acreditamos que cabe a nós estendermos a mão à ela, aceitarmos, abrirmos nosso coração, mas é ela quem é dona de suas decisões. Somos nós os submissos, que dando ou não licença (como preferimos acreditar), sentimos essa possibilidade estonteante no ar. Ela invade, e faz sorrir o coração de cada um, isso não tem como negar. Todos têm (ou acreditam ter) o direito de fechá-la a porta na cara, ou de deixá-la invadir a alma.., Mas não somos bem nós, que vamos e voltamos, como bem entendemos. Não somos nós que vivemos nessa natureza livre, nós somos de natureza aprisionada, caçadores da infância impossível, e sonhadores da maturidade idealizada. E é exatamente quando paramos de nos sentir superiores a isso, a possibilidade de amor, que ela vem nos saudar e se torna possível. Qualquer outra tentativa frustrada não é mera coincidência.


ps: (Lendo cartas/crônicas/poemas de Cecília Meireles, Clarice Lispector, Caio Fernandes de Abreu)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Prisioneira de mim

as lágrimas que dos meus olhos escorrem
viram palavras que pro papel correm
na corrida louca de exteriorizar
na tentativa insana de se concretizar

tantas coisas deixadas pelo caminho
me sinto na corda bamba, por um fio
para um lado, para o outro, para frente , para trás.
parece que não tem mais jeito, que não da mais.

tamanha frustração
derruba-me de antemão
sintoma perturbador
que se alastra, com fervor.

espalha-te , oh sensação
escancara-te nessa imensidão
exterioriza-te , por mim
concretiza-te, enfim

fale de dor
fale de amor
fale de rancor
fale de algo avassalador

mas não faça eu me perder
não me deixe apodrecer
nesse jogo de tabuleiro
onde me encurralo por inteiro.

preciso soltar
preciso gritar
preciso falar
preciso chorar!

chorar o grito em minhas entranhas
gritar a fala das minhas façanhas
falar o choro do âmago meu
soltar a palavra do que não é seu

preciso me libertar
me soltar, me acabar
prisioneira de mim
sou eu, apenas eu, enfim...

A Flor!

Estimada consciência:
À ti, endereço está carta
peço-te com veemência
me ajude antes que eu me mata!

me corroo por dentro
com tal proposta
perceba o que eu enfrento!
sinto o peso em minhas costas!

agora me aparece essa situação
o que fazer?
e chegou a hora da temida decisão!
qual vai ser?

nunca me vi em tamanha confusão!
parece ate tortura
preciso logo encontrar uma solução!
não aguento mais tamanha loucura!

diga-me a verdade
me responda, por favor!
tenha de mim piedade
me diga se aceito essa flor!

flor que traz amor
flor que traz insegurança
flor que traz tremor
será que pode trazer esperança?

um dia bateram em minha porta
abri sem pestanejar
uma figura meio torta
disse que só veio me amolar!

fiquei indignada com tamanha ousadia!
como pode alguém isso fazer?
mas o que será que ele queria?
o que me vinha trazer?

foi quando vi a flor
a tal do amor, tremor, ardor.
e um bilhete acompanhava
trazendo a pergunta que eu sonhava

e ai que te pergunto,
Oh sabia consciência
o que me causa esse tumulto
e me desacalma a paciência?

primeiro me veio o amor
depois me afoguei nas lágrimas
agora me vem essa flor
pedindo o fim das lastimas

caso aceite a proposta
serei uma trouxa!
devem haver milhões de apostas!
dizendo ou não que eu sou uma frouxa!

sei, consciência
quero apenas a sua aprovação!
o chamarei pela manhã
o direi o que quer meu coração!

assim será
letra por letra
afinal nada melhor .
bom, te direi antes que me esqueça!

Amor que me trouxe a flor
tente me entender
não há nesse mundo maior amor
do que o que devotei a você

fizeste troça de mim
não quiseste me ouvir
quando disse que meu amor tinha fim
e que eu iria partir

agora voltas
e queres compreensão
perdi o numero das rotas
que pegastes de avião!

viagem pra e pra lá
paris, Tóquio, Japão
viagem para aqui, acolá
Alemanha, Brasil, e ate Casaquistao!

amor, que me trouxe a flor
sinto muito mas esqueça...
é sim, com muita dor.
que te peço: DESAPAREÇA!